O CORAÇÂO DE JESUS

10-02-2011 12:50

 

UM DEUS COM CORAÇÃO

 

 

Não podemos falar de Deus sem fazermos uma referência explicita a Jesus Cristo, pois Jesus quem nos revelou, de uma forma plena e total o verdadeiro rosto do Pai; Ele é a encarnação fiel de Deus, como ele próprio afirmava: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar».

De facto Jesus é a verdadeira imagem do Pai e conhecer Jesus profundamente é conhecer o Pai.

Jesus é Deus, certo, mas encarna na nossa natureza humana, assume em Si plenamente a nossa natureza, partilha dela, faz-Se um de nós como nos diz a Carta aos Filipenses 2, 6-11:

 

«Cristo Jesus, que era de condição divina, *

Não se valeu da sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si próprio.

Assumindo a condição de servo, *

Tornou-Se semelhante aos homens.

Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, *

Obedecendo até à morte, e morte de cruz.

 

Por isso, Deus O exaltou *

E Lhe deu o nome que está acima de todos os nomes,

Para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, *

No céu, na terra e nos abismos,

E toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor *

Para glória de Deus Pai.»

 

Partindo deste texto, podemos verificar que Jesus assume a nossa humanidade sem medos e sem qualquer tipo de vergonha, pois a natureza humana não é algo de pecaminoso mas de bom porque obra de Deus. Não deixando de ser Deus, foi também humano: em Jesus tomam forma duas naturezas: a divina e a humana.

Por vezes podemos cair no erro de olharmos para Jesus apenas como Deus, um “super homem”, e esquecemos a sua natureza humana. Podemos olhar para Ele de uma forma destorcida como um Cristo distante, sempre calmo, impassível, imperturbável, quase mesmo indiferente às vicissitudes desta terra. Mas tal facto não é verdade: falar de Jesus esquecendo a Sua parte humana é falarmos de um Jesus inexistente. Ele foi semelhante a nós em tudo, menos no pecado, como nos diz São Paulo na sua carta aos Hebreus (Hb 4,15): «Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado».

 

Estamos em Advento, a aguardar a vinda do Senhor, mas será de todo importante sabermos com que Menino podemos nós contar, daí que vamos tentar conhecê-Lo um pouco mais, e vamos começar por conhecer/analisar o Seu coração.

 

 

O homem é, antes de mais, o seu coração, a sua capacidade de acolher e de encontrar. Os sentimentos são as verdadeiras estradas do homem para o homem. Os sucessos, as conquistas, o prestigio, o poder, a posse podem criar, pelo contrário, ressentimentos, reivindicações, divisões e ódios, distâncias.

O sonho de Jesus era que não houvesse disparidade entre os Seus, por isso diz: «sede perfeitos como o vosso Pai» (Mt 5, 45). Porque o coração de Deus conhece as diferenças e não as disparidades. O homem cresce na medida em que cresce o seu coração e amadurecem os seus sentimentos; na medida em que a gama dos seus sentimentos se torna mais rica.

Jesus sabia encontrar as maravilhas do coração do homem, mesmo escondidas debaixo de muita miséria e proclamava-as; para Ele, a pecadora pública é grande pelo amor e pela dedicação que manifesta; o centurião romano e a mulher cananeia encantam-n’O pela sua fé, em Zaqueu, chefe dos publicanos, reconhece-o como “Filho de Abraão”, por isso o Papa João XXIII convidava a Igreja a «descobrir o que une e não o que divide».

Comecemos, então, por analisar os sentimentos de Cristo

 

Vamos deter-nos em seis grandes sentimentos sentidos por Jesus:

 

1.     Indignação

2.     Angústia

3.     Tristeza

4.     Ira

5.     Admiração

6.     Amizade

 

1. Indignação

 

À primeira vista podemos ficar perplexos por Jesus ter este sentimento.

Podemos abrir as nossas Bíblias em Marcos 10, 14

Jesus indigna-Se porque impedem os mais pequenos de chegar até ele, e indigna-Se não só pela atitude de impedir os pequeninos de chegarem a Jesus mas, sobretudo porque os mais velhos julgavam ter o “monopólio” de Jesus; Jesus era só para os adultos, não era para crianças e pequenos. Recordemos que as mulheres e crianças não contavam na sociedade judaica.

 

2. Angústia

 

Mc 14,34

 

Jesus sente “pavor/terror” frente à morte. Sente medo, ansiedade, atitudes normais. Ele sabe que podia e pode contar com o Pai mas a Sua natureza humana também fala alto, não é insensível.

 

 

 

 

 

3.                 Tristeza

 

Mc 3, 5

 

Jesus mostra quase que “raiva” perante os que prezam mais a observância escrupulosa da lei que o bem do homem. Perante a maldade disfarçada e o silêncio de rancor dos seus adversários «Ele entristeceu-Se e olhou à sua volta indignado». Mais do que qualquer palavra, mais do que qualquer comentário, o seu olhar revela a sua tomada de posição, clara, contra a hipocrisia de quem usa a prática religiosa para escravizar o homem e não para libertá-lo.

 

4. Ira

 

Jo 2, 13-16 (vendilhões do Templo)

 

Trata-se de um incidente desagradável numa vida caracterizada por atitudes suaves, ternas e delicadas. Jesus perde o controle.

É a “ira” de Deus contra a vã religião dos sacrifícios, das cerimónias e dos ritos solenes que pretendem substituir o único culto agradável ao Senhor: a prática da justiça e do amor ao homem.

Com o seu gesto, Jesus coloca-Se na linha dos profetas, recusa a religião que não é expressão de adesão a Deus: «que Me interessa a quantidade dos teus sacrifícios? Estou farto dos teus holocaustos… (Isaías 1, 11-17 – LER)

 

5. Admiração

Mc 6, 5-6

 

Jesus admira-se com a falta de fé daquela gente. Em Nazaré parece que Jesus tem as mãos atadas e nem sequer consegue compreender a reacção da sua gente.

A omnipotência de Deus que se revela em Jesus não é a de quem pode fazer o que quer, mas a de quem, por amor, se faz servo do homem.

O verdadeiro apaixonado deixa livre a pessoa amada e nunca força. Jesus não Se impõe com provas; manifesta a grandeza do seu amor, faz a sua proposta, pede uma adesão, mas respeita as opções do homem. Sabe esperar e, como aconteceu em Nazaré, está disposto a aceitar a recusa, a desilusão e a derrota.

 

6. Amizade

 

Jo 11, 3.11.36

 

Jesus era amigo, sabia partilhar alegrias e tristezas, sente a necessidade dos outros e sente a perda de um amigo…

 

 

 

 

Partindo deste sentimentos podemos perceber como o coração de Jesus também sente o mesmo que nós sentimos, não é diferente do nosso, contudo aquilo que sente, sente-o de uma forma positiva, construtiva, profunda. Sente porque sente mesmo, sem falsidades ou hipocrisias.

 

Após termos vistos alguns dos sentimentos de Jesus, vamo-nos deter em outros aspectos do Seu coração para O compreendermos melhor, vamos ver como sente o Seu coração e vamos deter-nos em 4 formas diferentes do sentir de Jesus:

 

1.     Como sente o seu coração diante de uma multidão faminta

2.     Como sente o seu coração diante dos que estão à margem

3.     Como sente o seu coração diante do grito do marginalizado

4.     Como sente o seu coração perante a dor de uma mãe

 

1.     Frente à multidão faminta

 

Mt 14, 13-21

 

«Jesus teve compaixão daquela gente».

A sequência do relato mostra-nos a causa desta compaixão: as doenças e a fome das pessoas.

Jesus não fica indiferente à situação social e económica que obriga tantas pessaos do seu povo a viver em condições sub-humanas. Intervém, cura os doentes e, ao cair da tarde, mata a fome a todos, distribuindo os seus pães.

A sua compaixão e o sinal que realizou indicam aos discípulos quais são os sentimentos que devem cultivar em relação a quem tem necessidade da sua ajuda e quais são os objectivos concretos por que devem empenhar-se.

 

2.     Frente aos que estão à margem

 

Mt 15, 32-36

 

O homem não precisa só do alimento material. Mais do que desse pão, talvez ele tenha fome de paz, de liberdade, de solidariedade, de consolação e, sobretudo, de uma palavra que o ilumine e dê sentido à sua existência. E diante desta fome, Jesus tem compaixão.

Ele passava por todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho e curando todas as doenças e enfermidades. Vendo as multidões, teve compaixão delas porque estavam cansadas e esgotadas, como ovelhas sem pastor.

Em Israel, havia pastores: os escribas, os fariseus, os rabinos, o rei Herodes, mas não manifestavam pelo seu povo os sentimentos de Jesus, não tinham palavras de vida e de esperança, não ofereciam o pão que sacia e a água que mata a sede.

Movido pela profunda compaixão que sente, Jesus chama os doze e envia-os a anunciar a Boa Nova e a curar os doentes.

 

 

 

 

3.     Frente ao grito do marginalizado

 

Mc 1, 40-42

 

Um dia, contrariando as disposições da lei, um leproso aproxima-se de Jesus e pede-lhe: «Se quiseres podes purificar-me»

Notemos que ele não pede a cura, mas que se torne purificado, isto é, que volte a estar em condições de reentrar na comunidade dos homens (os leprosos estavam à margem!!).

Mais do que uma doença em si mesma, o que mais o angustia é o facto de se sentir rejeitado por Deus, foi assim que o ensinaram, e ser excluído da sociedade civil e religiosa.

Perante o seu pedido, Jesus comove-Se, escuta o coração, não as disposições dos rabinos que prescrevem a marginalização. Estende a mão, toca-a e cura-o.

Jesus é sensível à dor humana, Ele mesmo a sentiu…

 

4.     Frente à dor de uma mãe

 

Lc 7, 13-14

 

Jesus não evita o encontro com a dor, partilha a perturbação que aqueles homens experimentam diante da morte e sente compaixão daquela que fica sozinha. Avança, toca no caixão e ressuscita.

Reparemos que ninguém Lhe pediu que interviesse, ninguém Lhe pediu que fizesse um Milagre. É a sua compaixão que O leva a aproximar-Se de quem sofre.

 

Podemos notar por estes 4 acontecimentos, como Jesus “usa” o seu coração, sempre em proveito do homem e particularmente do homem que sofre, que está marginalizado.

 

 

Os gestos de Jesus obrigam a sair do coração a onda dos sentimentos, enquanto lhes dá um novo percurso:

 

- Ao paralítico, que desceram do telhado, diz: «Filho, os teus pecados estão perdoados» (Mc 2,5) e a reacção de alguns foi muito dura, exactamente como Jesus queria;

 

- Aos que decidem apedrejar a adúltera diz apenas: «Quem de vós não estiver em pecado, atire-lhe a primeira pedra» (Jo 8,7) e as pedras caíram das suas mãos.

 

- Ao paralítico da piscina e ao homem da mão ressequida, curados em dia de sábado, ao leproso e à mulher que tinha hemorragias, não se contenta com oferecer a cura, mas dá a alegria de uma nova relação com Deus.

 

 

 

 

 

 

 

Jesus não fala nunca em tornar-se amigo mas sim a amar.

Jesus, em seu coração praticou o amor ágape (caridade) que exigiu aos seus discípulos. Manifestou-o na cruz.

Mesmo perante os mais críticos Jesus manifestou-lhes sempre um amor ágape.

Muitas vezes os seus adversários tentam difamá-Lo, acusando-O de ser um Samaritano, um hereje. Um dia Jesus decide responder-lhes e diz-lhes: «Veio João que não come nem bebe e disseram: está com um demónio. Veio o Filho do homem, que come e bebe e dizem: é um comilão e um beberrão, amigo de cobradores de impostos e dos pecadores. (Mt 11,18-19).

É importante este comentário pejorativo acerca de Jesus. Provocou a resposta em que se indicam expressamente os seus amigos, as pessoas que Ele gosta de frequentar: os marginalizados, os impuros, aqueles que nada contam. Gosta tanto deles que educa os seus discípulos a também fazerem o mesmo. (LER Lc 14, 13-14).

 

Na Bíblia, a palavra coração designa, mais do que sentimentos, a sede das opções, das decisões, das avaliações.

 

Como podemos resumir o coração de Jesus?

 

LER (Mt 11, 28-30)

 

Estas palavras são dirigidas às gentes simples do povo que sofre sob o peso das prescrições que, em vez de libertarem, de darem alegria e de aproximarem de Deus, provocam ansiedade, inquietação. Jesus convida que se alivie este jugo insuportável e se aceite a sua proposta que, embora sendo muito mais comprometedora, é também fonte de equilíbrio interior e de paz com Deus e com os homens.

 

Na Bíblia, manso é o homem recto que, embora sofre extorsões e prepotências, não se exalta, não se enfurece e não agride. Manso é o homem piedoso que confia no Senhor porque está certo de que nunca será abandonado.

 

A mansidão de Jesus é aquela que fala Isaías e que Mateus cita: «Eis o meu servo… não discutirá nem gritará e ninguém ouvirá a sua voz nas praças. Não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que ainda fumega» (Mt 12, 18-20).

 

É esta atitude que Jesus exige dos seus discípulos: deverão apresentar-se aos homens «como cordeiros», não forçarão ninguém a aceitar a sua proposta, deverão ser sempre modelos de respeito e de tolerância (Lc 9, 51-55).